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Culturas e Resistências na Cidade – 2a. Etapa

Coordenador
Lilian Fessler Vaz

Cidade, pobreza e cultura são dimensões crescentes da realidade contemporânea e que vem sendo anunciada por diferentes instituições e autores, dentre os quais destacamos Mike Davis, sobre a urbanização e a pobreza, e Alain Touraine, sobre a cultura enquanto um fator privilegiado do pensamento contemporâneo. Outros pensadores vem apontando o potencial da cultura, seja como uma base estável e duradoura, capaz de assegurar a coesão social e o pertencimento a um grupo ou a uma sociedade num mundo em transformação; seja como instrumento para reduzir as desigualdades e promover a integração social.
O destaque da cultura nos estudos urbanos se percebe por dois conjuntos de fenômenos. O primeiro centra-se nos grandes projetos e intervenções urbanas que utilizam a cultura como estratégia principal. O segundo centra-se nas ações culturais de grupos, geralmente de jovens moradores em favelas e periferias que se utilizam de diferentes linguagens para as suas manifestações artísticas e culturais. No primeiro caso trata-se do uso da cultura como instrumento de desenvolvimento econômico; no segundo, a cultura é percebida no sentido do desenvolvimento humano. O primeiro exemplifica as zonas luminosas da cidade; o segundo remete às suas zonas opacas, na acertada expressão de Milton Santos. Acreditamos, como Marta Porto, Ana Clara Ribeiro e M. Santos, que justamente estes espaços opacos venham a ser lócus privilegiados de mudanças sociais estruturais.
O objetivo da pesquisa é trabalhar na inter-relação entre a cidade a cultura, com foco sobre as ações culturais enquanto formas de resistência, em busca de modos de superar obstáculos e alcançar condições de inclusão social e desenvolvimento humano. Assim, definem-se num campo transdisciplinar: as relações entre a cidade e a cultura (o domínio); as ações culturais (o objeto) e a resistência à exclusão e as possibilidades de transformação (o problema).

No domínio das relações cidade/cultura, pesquisamos formas simbólicas, maneiras como se espacializam, se territorializam e como são representadas, procurando compreender como se estabelecem as mediações e como podem ser interpretadas. No campo das ações culturais, exploramos o seu universo empírico, verificando suas características – principais sujeitos, linguagens artísticas/culturais, espaços, discursos, metas, práticas e modos de fazer; resultados, limites, aspectos positivos e negativos, entre outras. Este é o objeto principal de pesquisa, que esquadrinhamos a partir de diversos eixos de análise. As formas de resistência e de transformação (individual, coletiva, social, espacial), que se associam às ações culturais constituem a questão principal a ser trabalhada.

Neste sentido, uma vez examinado o objeto, exploramos, por um lado, o campo das políticas públicas urbano-culturais, indagando como a atuação dos grupos culturais periféricos poderiam informar o desenvolvimento de políticas públicas, e como estas políticas poderiam apoiar o desenvolvimento das ações culturais. Por outro lado, consideramos necessário explorar o campo dos movimentos em si, enquanto potências de transformação, compreendendo-as pelo seu impulso original, pelo seu “agir contra” sem ponto de chegada, sem cooptá-las nem esvaziar a sua potencialidade transformadora.